terça-feira, 9 de março de 2010

Houve um tempo (Lígia)


Pois é, pra mim também houve um tempo. Engraçado que ontem mesmo numa mesa no Monte Sinai a gente tava conversando sobre isso, e como sempre, em 4 anos, as nossas risadas eram as mais altas num raio de 50 metros!
Houve um tempo em que eu não me entendia, houve um tempo em que eu não tinha coragem de olhar pra mim mesma, em que eu usava muitas máscaras e me escondia atrás de muita coisa. Houve uma época que muita raiva, muita paixão, muito sentimento ficava preso dentro de mim, e eu não sabia como explicar, e eu não sabia como controlar, e eu não sabia como mostrar. Houve um tempo que não faz muito tempo, faz 4 anos e parece que faz uma vida toda.
Eis que a partir de um dia de chuva e de 1,68m em comum eu disse “eu te entendo” mais do que eu poderia dizer por uma vida inteira, e eu comecei a compartilhar muito mais do que 1 milhão de risadas e 1 milhão de lágrimas, eu compartilhei todo o meu ser, tudo que eu sou e tenho orgulho e tenho vergonha. Eu compartilhei toda a minha luz e toda a minha escuridão, e recebi em troca compreensão e nenhum julgamento.
Olhando pra ela eu olhei pra mim, a gente se enxergou nos nossos pedaços, nos nossos desesperos, sim, com certeza, a gente se enxergou nos nossos medos, nas nossas angústias, no que de mais feio a gente via na gente. A gente se enxergou na imensa escuridão, quando mais ninguém enxergava nada disso. Mas, além disso, além de todos os choros e crises e problemas, a gente tem essa mania autodestrutiva de ser otimista, e se tem uma coisa que uniu a gente desde o começo é a capacidade de ser positiva e de dar risada da gente mesmo nos momentos mais difíceis. É por isso que ontem você ligou pra mim, é porque o nosso fundo do poço pode ser bem fundo, mas de alguma maneira a gente faz ele mais raso! A gente já esteve lá algumas vezes, mas a gente se recusa a ficar la por muito tempo, e de alguma maneira nessa jornada toda a gente aprendeu a, com as próprias mãos, fazê-lo mais raso.
Por mais que a gente estivesse destruída emocionalmente a gente sempre teve uma sensibilidade inexplicável de não se lamentar e pensar “cara, como a gente ta sendo fraca, isso não é nada perto de tantas outras coisas que realmente importam”. E a gente nunca teve muita paciência pra pessoas que se fazem de vitima. E cara, é por isso que você tá indo pra lá agora, é por isso que eu te falei desde o primeiro momento que eu fiquei sabendo do terremoto “hahahahaha só podia ser com você, se não fosse com você, seria comigo”, porque toda essa preocupação com você é pequena demais pra tudo que você já realizou pra estar lá e tudo que você ainda pode realizar estando lá!
Chu, a gente nunca foi do tipo que quer moleza ou conforto, a gente sempre quis viver no limite, a gente sempre quis mais e mais, a gente nunca se contentou com metade. É por isso que você vai pra lá, porque você sabe onde estão as coisas que realmente valem a pena, o que realmente vale a pena na vida. E o laço que você vai criar com esse lugar e com as pessoas que você vai conhecer lá, é isso que importa, é isso que você carrega depois, tudo que você vai aprender, trocar e oferecer como pessoa e como arquiteta. Eu me lembro tão bem da gente com as nossas mil crises copiando fotos do centro pra entregar 5438 mil desenhos e sabendo, de alguma maneira, que aquilo tava errado, e quando a Loschiavo trouxe aquela mulher pra contar das experiências dela no pós Tsunami na Ásia e no pós-guerra da Bósnia, aquilo fez todo o sentindo do mundo, como a gente se enxergou naquilo!
Agora você tá indo, pra deixar de sonhar e começar a viver tudo que está dentro de você, e que eu enxergo em mim. Pra fazer da vida o melhor que ela pode ser, pra fazer a curva enquanto todos estão andando em linha reta.
Se eu tenho medo? Claro que eu tenho medo, o terremoto foi de 8.8 na escala Richter! HAHAHAHAHAHAHAHAHA Mas Chubis, se você desistisse você não seria você, e se eu te desestimulasse eu não seria eu.
Então vai, e leva todo esse amor, toda essa alegria e essa risada escandalosa cheia de dentes que eles tão precisando. Enquanto isso, a gente se vira por aqui. Te amo.

2 comentários:

Nathalia disse...

sério, uma das coisas mais lindas que eu já li.

vocês me fazem lembrar que tudo, exatamente tudo vale a pena, seja lá o que for.

vocês duas são fodas. só platão entenderia a minha admiração por vocês.

Ju All disse...

Bonito mesmo.. vcs 2, a coragem da Dani.
É ruim falar isso mas esse terremoto vai ser mto bom pra vc, nao tenho duvidas. Por tudo o que vc vai aprender, td o que vai compartilhar, passar, viver, ajudar.
Se joga, gata, que é a sua hora!
beijos te vejo no iterfau de bata.